Curso dos Rios: Como funcionam as desembocaduras e porque elas mudam de lugar
- batepapocomnetuno
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Por Tatiana Pinheiro Dadalto
Já parou pra pensar por que um rio deságua aqui ou ali? O rio dos Mangues, em Porto Seguro, por exemplo, geralmente deságua entre as barracas de praia Barramares e Baleia Jubarte, localizadas na praia de Taperapuã, mas recentemente está desaguando bem mais ao sul, afetando as barracas Gaúcho, Sueds e Kaiambá. Essa não é a primeira vez que isso acontece. Como pode ser visto em imagens de satélite, a desembocadura do rio dos Mangues já esteve mais próxima à barraca do Gaúcho em 2013 e 2019/2020. O que faz essa foz mudar de forma tão evidente tem a ver com os processos litorâneos que controlam o transporte de sedimento na região costeira. Esses processos são resultado da interação dos ventos, ondas, marés e chuvas (carga e descarga fluvial) com os depósitos sedimentares na parte submersa da praia (a que fica embaixo d’água) e também na parte emersa dela (a parte seca), e ainda na zona costeira logo ao lado.
Desembocadura do rio dos Mangues em 2013, 2020 e 2024. Fonte: modificado de Google Earth Pro. Licença CC BY-SA 4.0.
Quando uma onda se aproxima da costa, ela quebra, se espalha e espraia, subindo e descendo na areia da praia. Dessa forma ela dissipa sua energia, que é utilizada para ressuspender e transportar o que tiver disponível – aqui nosso foco será o sedimento, como a areia, mas podem ser microorganismos, restos de algas e outras plantas/animais, plásticos, poluentes dissolvidos etc.
De forma geral, podemos dizer que ondas vindas continuamente de uma mesma direção, e especialmente se atingem o litoral de forma inclinada, costumam transportar sedimentos no sentido oposto ao da sua chegada. Chamamos esse transporte de sedimentos pelas ondas de deriva litorânea. Assim, ondas de nordeste (no sul da Bahia são os ventos de tempo bom, ou ventos alísios, que geram essas ondas) forçam a deriva litorânea para sudoeste/sul. Por outro lado, quando temos condições de ondas de sudeste (relacionadas à passagem das frentes frias), a deriva litorânea tende a ser direcionada para noroeste/norte. É importante lembrar que a influência dos ventos sobre as ondas não se limita somente à direção de incidência da onda e sentido da deriva litorânea, mas também a outros aspectos das ondas, como altura, período, energia e potencial erosivo.
Outras características do litoral e da zona costeira que influenciam o transporte de sedimentos e como ele afeta as praias são: altitude e morfologia da costa, presença de vegetação, grau de compactação dos sedimentos, presença de estruturas rígidas na costa e presença de rios. Cada um desses aspectos agrega peculiaridades e complexidades ao funcionamento do sistema praial e da desembocadura fluvial.
Mas vamos simplificar o funcionamento da praia focando na interação entre os sedimentos e as ondas (que, por sua vez, são dirigidas pelos ventos). Vamos deixar todos os outros fatores que mencionei de lado, por enquanto. Se os ventos mudam muito ao longo do ano, dos anos, das décadas, e são eles que regulam o tipo das ondas que chegam à costa, então, logicamente, podemos concluir que as praias são sistemas ambientais em constante transformação. Se transformam de acordo com a mudança das ondas, ou seja, dos ventos.
Se pensarmos nos ciclos de verão e inverno, vamos lembrar que se no verão predominam ventos e ondas de nordeste, no inverno ocorre maior influência dos ventos e ondas vindas do quadrante sul. Então, naturalmente, haverá uma marcante modificação na deriva litorânea e no balanço sedimentar da praia, ou seja, na quantidade de areia que a praia tem ao longo de um período de tempo, considerando o que saiu (erosão) e o que entrou (acresção) no sistema. De forma geral, e considerando o transporte lateral de sedimentos, uma praia natural tende a perder areia em um período do ano e recuperar o volume de areia no outro período do ano.
Outro ponto crucial para entendermos a variabilidade do curso de rios de pequeno porte - o rio dos Mangues em Porto Seguro, por exemplo - tem a ver com o fato de que o fluxo das desembocaduras tende a interromper a deriva litorânea, pois o fluxo de água age como um obstáculo ao transporte ao longo da costa, ou seja, os sedimentos se acumulam de um lado (acresção) e deixam de alcançar o outro (gerando erosão). Em condições de vazão fluvial moderada, este acúmulo sedimentar forma um depósito em formato alongado e descolado da costa, chamado esporão, que vai paulatinamente crescendo e deslocando a desembocadura lateralmente. Quando a vazão é muito baixa, o esporão pode fechar temporariamente a desembocadura, formando lagunas. Na região da desembocadura do rio dos Mangues elas são comumente observadas.

Desembocadura do rio dos Mangues direcionada para sul no final do verão de 2019. Licença CC BY-SA 4.0.

Laguna formada no canal abandonado do rio dos Mangues após a mudança de sua desembocadura (4 meses depois da imagem anterior). Licença CC BY-SA 4.0.
Todo esse conhecimento vem da Ciência, da Oceanografia, da Geologia, da Sedimentologia – e precisamos falar mais sobre isso! Diante de tudo que abordei aqui, uma conclusão é certa (e já bem descrita pela literatura científica): as desembocaduras de rios são naturalmente variáveis, o que torna a ocupação do seu entorno muito vulnerável. A alta vulnerabilidade do entorno do rio dos Mangues foi apontada pela oceanógrafa Gabriela Leal em seu estudo realizado na UFSB/IFBA em 2024.
O turismo em Porto Seguro é famoso pela estrutura e conforto das barracas de praias, mas essa ocupação histórica na zona costeira traz impactos muito grandes para o funcionamento do sistema praial. Alguns dos impactos são: remoção da vegetação, diminuição de áreas para acúmulo de sedimentos (trazidos pelos ventos e principalmente pelas ondas), compactação do solo/depósitos arenosos, potencialização da erosão por chuvas, alteração antrópica do curso do rio (por exemplo, a tentativa de contenção do fluxo natural do rio dos Mangues em abril de 2024), presença de escombros e entulhos nos casos extremos de erosão gerando perigo ao banho (por exemplo, barracas Farol da Praia e do Netuno, na praia da Ponta Grande), acúmulo de lixo.

Sacos de areia colocados como tentativa de alterar o fluxo do rio dos Mangues em agosto de 2024. Licença CC BY-SA 4.0.
As praias são bens públicos de uso comum do povo que estão sendo engolidas por iniciativas que pouco ou nada se preocupam com conservação, muito menos se comprometem com compensações ambientais. Aliás, na contramão da conservação, há a tentativa de abrir brechas para a privatização de praias e zonas costeiras (por exemplo, a Proposta de Emenda à Constituição – PEC 3/2022), que afeta a todas as pessoas por dificultar os acessos à praia e ao oceano, mas, mais expressivamente, afeta as populações que tiram seu sustento desse ambiente, como populações tradicionais pesqueiras por exemplo. Além de fonte de renda, as praias e zonas litorâneas são lugar de recreação e lazer, de apreciação da natureza e habitat para diversas espécies. Além disso, assim como os manguezais, as praias oferecem proteção à costa, já que ajudam a dissipar a energia que chega do oceano ao continente através das ondas e marés.
A melhor forma de mitigar os impactos da alteração do curso do rio dos Mangues e de todos esses impactos negativos da ocupação costeira desordenada é ter mais cautela com o ambiente em que vivemos, conhecer seu funcionamento, dar espaço para sua manifestação. Não significa não fazer uso dela, mas implementar formas mais sustentáveis e até mesmo regenerativas na nossa forma de usar e ocupar praias e zonas costeiras. Pra isso tem ciência: monitoramento ambiental, mapeamento de vulnerabilidades, recuperação de áreas degradadas, arquitetura regenerativa, ciência cidadã, turismo regenerativo e muito mais. Mudar a forma de pensar e agir pode ser difícil, mas é necessário e urgente para um futuro melhor.
Sobre a autora:

Tatiana Pinheiro Dadalto é oceanógrafa com doutorado em Geologia e Geofísica Marinha. É professora, pesquisadora e extensionista na UFSB, em Porto Seguro.
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